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NATAL EM CARACAS e VIAGEM TERRESTRE AO BRASIL
23/24-12-2004
A ceia de Natal foi na casa do casal Trina Quiñones e Gonzalo Prieto: numa casa nos altos de Los Chorros, com a filha adolescente Durga. Eles moraram no Brasil no início da década de 90 do século passado quando Gonzalo estava num cargo diplomático em Brasília.
Ela fazia parte de um animado e festivo grupo de poetas e músicos de que participavam, dentre outros, os amigos Sofia Vivo, Santiago Naud, Anderson Braga Horta e Fernandes Mendes Vianna. Cheguei ao grupo graças à amiga Elga Pérez-Laborde, que encontrou-me à época por intermédio do meu editor Vitor Alegria.
Elga havia assistido à estreia de Tu País está Feliz, em Caracas, em 1971.
Com outros convidados e familiares costumávamos reunir-nos em casa de Trina ou de Sofia, para ouvir música, poesia e para comer. Atividade que cessou quando Trina e Gonzalo foram transferidos para a Rússia, numa nova missão diplomática.
Eu depois fui para Porto Rico, Sofia e o marido Mário mudaram-se do apartamento para a casa que construíram no Lago Sul de Brasília, nas cabeceiras da Terceira Ponte, hoje JK, antes de ser construída, e depois eles foram para Buenos Aires para um serviço com o BID, onde Mário trabalha.
As tertúlias acabaram, mas as amizades continuaram pelo correio ordinário e, depois, com o avanço da tecnologia, pela web.
A ceia natalina foi excelente, sem faltar a tradicional hallaca. Tivemos todos o tempo para conversar sobre nossos projetos— ela está traduzindo alguns de meus poemas recentes e eu os dela para minha/nossa página na Internet — e para rever as fotos daquela convivência tão fraterna, inclusive umas das visitas à (minha) chácara Irecê, quando a filha era ainda criança, onde deixaram seus nomes gravados nas placas de cimento nos caminhos do jardim. Não podia ter sido melhor a celebração natalina.
Contraí uma infecção durante a viagem, provocando uma terrível diarreia que complicou muitos as recepções natalinas. Passei a fazer um rigoroso regime alimentar se a tomar remédios que a experiente Zélia recomendou.
Mesmo sem muito alento, fui com o NILDO ao Parque del Este, obra paisagística dos tempos do Presidente Rômulo Bittencourt. Havia bastante tempo por lá, apesar do vazio geral da cidade.
Domingo 26-12-2004
Passamos boa parte do dia em casa de Zélia que preparou um belo almoço para nós. Eu tive de contentar-me com uma delicada canja de galinha.
Pela noite, depois de um bom descanso no hotel, fomos caminhando para a praça La Castellana, agora com belíssimos edifícios modernos e esculturas nos jardins e de lá seguimos para o shopping San Ignacio, um local novo e muito elegante, para um breve e leve jantar. Não muito o que escolher. NILDO escolheu luma pizzaria e eu bebi uma água.
Marcamos um encontro no edifício que a Fundación Rajatabla ocupa, nos espaços do Ateneo de Caracas, em frente ao Hotel Hilton. Xulio Formoso já estava lá à nossa espera e depois chegou o administrador e ator de Rajatabla Francisco “Paco” Alfaro”. Ficamos um par de horas revendo as “relíquias” do grupo teatral que fundamos em 1971 — NILDO aproveitou para uma sessão de fotos digitais — e que por milagre, com muito esforço e dedicação continua existindo. Foi emocionante rever a pintura com a imagem de nosso companheiro Carlos Giménez, parecendo o Lord Byron. Morreu vítima da Azos quando a doença não tinha qualquer tipo de cura ou contenção. Não sei como Rajatabla sobreviveu à morte de seu gênio diretor, e dos autores, como o Pepe Tejera. Uma tragédia humana que eu não presenciei porque já havia deixado a Venezuela há muito tempo e perdido o contato com os membros do grupo teatral.
As paredes do escritório e as áreas adjacentes estavam repletas de troféus, fotografias, cartazes e todo tipo de testemunhos das glórias de nosso grupo Rajatabla durante e depois de prêmios, condecorações, diplomas...
Xulio aproveitou para mostrar-nos os avanços na composição do fado – então batizado de “Uma farsa” — e também uma nova canção — fantástica! — que vai ser um ponto alto do espetáculo, que denomimos “Marginália Maravilha”.
Terminamos no grandioso clube Hermandad Gallega, como convidados especiais, para uma longe e demorada refeição típica — o famosos e “pesado” cocido — que eu declinei educadamente, preferindo um caldo de arroz com bife de frango na grelha e um pouco de vegetais cozidos, com “água quina” (tônica), adequados para o meu estado de saúde. Mas já me sentia bem melhor.
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O fim da tarde foi dedicado à busca de passagens para o nosso regresso (NILDO e EU) ao Brasil. Por telefone, não conseguimos nenhuma informação.
No dia em que chegamos ao Terminal de La Bandeira
(El Conde) havia um tumulto e foi impossível saber se dali saía ou não ônibus para Manaus. Disseram que não. O homem do taxi informou-nos que o terminal de ônibus para a Amazônia era em San Martin. Fomos para lá no dia seguinte. Na empresa que vendiam as passagens informaram-nos, com muito má vontade e imprecisão, que talvez fosse o caso de nós irmos ao terminal do Oriente, nos arredores de Petare, do outro lado da cidade. Achamos melhor deixar passar as festas de Natal. Voltamos ao Terminal La Bandeira e lá nos garantiram que somente no Terminal de Oriente, em Guarenas, iríamos ter informações mais concretas. Tomamos o metrô para a Plaza Venezuela, fizemos o transbordo e fomos até à estação de Petare e de lá, num lotação literalmente lotado, seguimos para o termina indicado. Parecia que estávamos em Calcutá, num congestionamento de gente, sobre lama e sujeira. Dava medo e era difícil sair daquele labirinto apinhado ao ponto do ônibus-lotação. Felizmente a situação do terminal era tranquila.
Encontramos o guichê da empresa brasileira Encatur que era representada pela parceira venezuelana Expresso Caribe. O rapaz que nos atendeu surpreendentemente gentil e colaborativo. Não havia ônibus antes do dia 5 de janeiro se dia 5 era a data do nosso voo, partindo de Boa Vista. Explicou que não havia ônibus para Santa Elena do Uairén naqueles dias de festas (31 de dezembro e 1º. De janeiro) porque os motoristas estariam em recesso, com a família... Aconselhou-nos a viajar para Puerto Ordaz onde saem ônibus para Manaus regularmente, um no dia 3 de janeiro. O problema é que eles não vendem as passagens em Caracas nem é possível os tickets em Puerto Ordaz com antecedência, só no dia da viagem... Inacreditável.
Deu-nos o telefone de um contato em Puerto Ordaz para que tentássemos uma reserva, mas foi sincero: pode telefonar hoje mas ele pode esquecer, é bom ligar outras vezes...
O regresso para Petare foi mais tranquilo, lá o camelódromo já estava quase vazio. Descobrimos um centro comercial junto à estação e aproveitamos para uma compras e para jantar. Lá encontrei um shop suey vegetariano adequado para a minha dieta.
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O TELEFÉRICO
28/12/2004
O teleférico de Caracas esteve fechado por duas décadas. Quando eu cheguei a Caracas, em 1966, foi um dos meus primeiros passeios de deslumbramento. Usei uma pista de patinação no gelo pela primeira vez. O trecho para o litoral parece que não existia ainda e atualmente está abandonado, principalmente depois da catástrofe do deslizamento de terra no litoral de La Guajira, que deixou terrível rastro de destruição e mortes.
A viagem no teleférico é fantástica. Não foi a primeira vez nem a segundas, mas fazia-o com renovado prazer.
Já subi muitos teleféricos pelo mundo, inclusive o de Mérida, também na Venezuela, que chega às neves eternas dos Andes, mas o de Caracas oferece um verdadeiro espetáculo por causa da vista da cidade no vale e, do outro lado, o mar Caribe. Havia, porém, nuvens baixas nos costados da montanha, que impediam ver as cidades do litoral de La Guayra, mas o passeio levou-nos à memória dos anos de minha formação universitária, na Venezuela, país que me deu a oportunidade mais importante de minha vida durante a juventude.
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29-12-2004
Tivemos um novo encontro em Rajatabla, desta vez com a presença de Trina, além do Xulio em em separado, com o Paco. Vou fazer o esforço para que cumpram os compromissos e os cronogramas acertados.
Os humores de Xulio e da esposa Carmen, continuam difíceis, traumatizados com as adversidades. Ela perdeu o emprego e está na lista negra para o serviço público. Xulio tem agora um salário medíocre, muito abaixo dos padrões em que vivia antes, e vive maldizendo de tudo, com um humor ácido. Dá para entender.
Não avançamos muito nas composições, conseguimos apenas fazer alguns ajustes na versão do “Vou fechar para balanço” em português, e a conversa sobre os planos e sonhos de nossos futuros trabalhos em parceria.
***
Da casa de Xulio, em Colinas de Bello Monte, fomos caminhando até a Praça Las 3 Gracias, em Los Chagaramos. Eu queria ir até ao “Edifício Eden, terceiro piso, apartamento 15, nas proximidades, onde morei antes, fomos direto para o campus da Universidad Central de Venezuela. [Não tenho certeza de que o edifício ainda exista, queria mergulhar um instante no passado mas, da vez anterior em que lá estive em semelhante experiência, saí consternado e resultou numa das crônicas nostálgicas do meu livro Relógio não marque as horas.
ELÍAS YÁNEZ
Fui ao encontro do poeta e animador cultural Elías Yánez na confeitaria Flor de Castilla, em Altamira. Ele foi um dos responsáveis pela esplêndida recepção que eu tive em minha viagem anterior a Caracas, há dois anos atrás, com uma exposição de minha obra na Biblioteca Nacional, além do recital de poemas e canções de “Tu país está feliz” com os amigos Xulio, Paco, Leopoldo, Gustavo e José Ramón, culminando com um concorrido coquetel.
Elias é ainda bem jovem (30 anos), vem de uma experiência com banda de rock e teatro, agora trabalha na Biblioteca Nacional e dedica-se à literatura. Acaba de lançar seu segundo livro de poesia — Oración por la mujer galleta _e está promovendo-o com muito profissionalismo. Tem boas relações com o governo atual e com a intelectualidade caraquenha, com a imprensa e a mídia em geral.
Ficou exultante ao saber que vamos incluí-lo em nossa Página na Web -- o Portal e prontificou-se a dar todo o apoio para promover meu livro “Perversos” localmente, a coloca-lo em livrarias, a divulgar a nossa página pelos meios ao seu alcance.
Zélia preparou outro de seus jantares com requinte e esmero. Comida leve, adequada para minha dieta, apesar de que eu já estava completamente recuperado dos problemas de saúde.
PRAIA
31-12-2004
Descemos na direção do litoral, em busca de um balneário público depois do centro da cidade de La Guayra. Como estávamos às vésperas do Ano Novo, apesar de ser um sábado, não havia muito movimento na rodovia. Os venezuelanos não têm o costume de ir ao mar na passagem do ano, como no Brasil.
O país inteiro tem belíssimas praias mas no litoral central os locais de banho são precários, sujos, mal cuidados. As praias mais paradisíacas estão mais pra o lado de Puerto Cabello ou na direção do oriente, incluindo a famosa Isla Margarita, que conheço de outros tempos.
Queria apenas atender a vontade do companheiro NILDO que, certamente, ficou um tanto decepcionado porque não havia as palmeiras em profusão nem a vegetação luxuriante de seus sonhos. Havia pedras no quebra-mar, uma areia parda, uma vegetação distante, nas montanhas, xerófita. Mas o mar era azul e uma água numa temperatura agradável e convidativa.
Tenho medo do mar nessa região do Caribe. Nos anos 60, no balneário de Cátia del Mar fui levado por uma corrente marinha e debati com todas as minhas forças para escapar da morte. Deixei-me flutuar, fiquei boiando enquanto os salva-vidas vinham em meu socorro. O primeiro não conseguiu livrar-me nem sair tampouco. Um bote veio em ajuda e terminei num hospital. Por sorte, não havia bebido muita água, mas o corpo estava exausto. Todos os músculos doíam e passei vários dias para voltar mover-me sem dores.
A praia de Camuri Chico, onde estivemos, estava protegida por dois portões de pedra (dos quebra-mares)s e por uma rede impedindo o passo ao mar aberto e havia até um bote de prontidão.
Ao fundo, os edifícios residenciais. Na areia havia tantos banhistas quando vendedores ambulantes gritando estridentemente seus produtos - sopa de camarão, sorvetes, cervejas, havia de tudo.
No centro de La Guayra havia ainda os vestígios da devastação. Casas destruídas, abandonadas, marcas dos deslizamentos de terra se pedras nas encostas.
0 belo casario colonial em ruas estreitas e janelas protegidas por grades de madeiram tão características da arquitetura tradicional venezuelana, habitada por gente pobre e abandonada. Bêbados, desempregados, gente um tanto agressiva naquelas ruelas antigas, com fachadas encardidas e trisites. Só o majestoso edifício da Compañia Guypuscoana estava em seu esplendor de sempre olhando para o porto com suas janelas enormes, para o mar que sempre foi a relação da cidade com o mundo e com o passado.
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O primeiro dia de 2005 foi de marasmo e tédio. Comércio fechado, pouco movimento nas ruas, muita gente na ressaca. Nem o Parque del Este abriu para seus frequentadores. O máximo que conseguimos foi comer uma deliciosa pizza de “queso amarillo con palmito” numa “fuente de soda” elegante da Plaza Castellana.
02/01/2005
Zelia Stoddart preparou uma festa de despedida em seu belo e espaçoso apartamento nos altos de Altamira, com os amigos dela e os meus. Generosa e carinhosa como sempre!
Vieram os membros da sociedade de bromeliófilos, incluindo Edith Steinbruch e os meus amigos Paco Alfaro e Xulio Formoso.
A mesa de canapés e bebida era refinadíssima. Fechamos a programação com um recital de poesia e canto, incluindo músicas de Tu país está feliz e um fado que acabávamos de compor — que o Xulio intitulous “Uma farsa”, aproveitando parte do primeiro verso do meu soneto que deu origem à música. Os versos sobre a Venezuela que li na oportunidade soaram muitos atuais, na opinião dos presentes. Seguiu-se uma espécie de entrevista e debate sobre a nossa obra e sobre Rajatabla, com os participante e testemunhos de Paco e de Xulio, assim também sobre minhas obras sobre minha visão da poesia, agnosticismo e sobre a situação política do Brasil. Como seria previsível, foi um pretexto para todo mundo desabafar e lamentar o regime truculento de Hugo Chávez. Ao contrário da minha visita anterior, há dois anos antes, quando havia uma luta deflagrada em favor do plebiscito, com a esperança de virar a história pela via constitucional. Chávez é uma figura rude, ambiciosa, capaz de tudo para manter-se no poder, a qualquer custo. Ele tentou primeiro um golpe de estado, depois foi anistiado. O regime democrático venezuelano entrou em colapso com tanta corrupção e incompetência.
Olhares postularam-se à presidência e ganhou as eleições com uma vantagem esmagadora de votos e aproveitou para reformular a constituição para dar-lhe poderes ilimitados, sujeitou os poderes legislativo e judiciário ao seu comando, encarcerou os militares dissidentes. Houve um desastrado contra-golpe, Chavez foi destituído mas as lideranças cometeram erros terríveis, não souberam fazer aas articulações adequadas. Em vez de convocar novas eleições, empossaram uma presidente-tampão, sem legitimidade. Chavec reagiu e reassumiu o poder e de lá para cá só amplia se esquema ditatorial. Diz claramente que veio para ficar por muito tempo...
O plebiscito fracassou. Com ou sem fraude, Chavez saiu fortalecido e agora persegue quem esteve contra ele: a imprensa, a mídia, a intelectualidade, os funcionários públicos que fizeram greve, que assinaram manifestos.
Vai fechando o círculo e isolando toda e qualquer resistência democrática ao se projeto político.
Ninguém vê uma saída imediata para reverter a situação. Chavez já diz claramente que fica no poder até 2021, com perspectivas de continuísmo!
Tomamos um ônibus da empresa Rodovias de Venezuela às 10:30 pm, com algum atraso. Surpreendentemente, um bom nível de organização e atendimento no terminal exclusivo da empresa de viação, comparando com o que vimos nos outros terminais por onde andamos, onde sempre havia tumultos, desinformação e descaso com o público. Mas o ônibus não era tão confortável como o da viagem de vinda e o frio era desconfortável, mas foi um percurso tranquilo até Puerto Ordaz.
03-01-2005
Chegamos pela manhã no terminal de Puerto Ordaz e, por sorte, havia lugares no ônibus internacional que saía pela noite par Boa Vista, em Roraima (Brasil). E até guardaram as nossas bagagens na sede da empresa.
Chegando lá, fomos caminhando para o centro da cidade. Puerto Ordaz é uma cidade planejada, moderna e próspera e vive das siderúrgicas e da produção de energia elétrica. Lá está a Represa do Guri, a segunda maior do mundo e um polo industrial. Em tudo bastante parecida com as cidades brasileiras...
Visão aérea de Puerto Ordaz - Foto Google.
Ficamos muito tempo no centro comercial, depois do almoço, vendo as pessoas andando de um lado para outro. Parecia que estávamos em um shopping qualquer dos arrabaldes das grandes cidades brasileiras. Nada resultava estranho aos nosso olhos, em Puerto Ordaz: os mesmos tipos físicos, as mesmas roupas informais (bem mais do que em Caracas), os mesmos penteados e até a mesma forma de comportar-se a de andar... Não há outro país no continente americano tão parecido com o Brasil. A mesma mescla de raças, a mesma extroversão, e muito da idiossincrasia mística que nos identifica. Mesmo ouvindo-os falar espanhol, ainda assim, às vezes pensamos já estar de volta ao Brasil...
Lógico, na intimidade, as diferenças aparecem; à distância é mais o que nos assemelha do que nos diferencia.
Nós não ficamos surpreendidos com tanta similitude mas eles, os venezuelanos, com os quais contactamos, ficavam estranhando não serem mais diferentes, não parecermos mais estrangeiros (não fosse pelo distintivo de nosso sotaque).
04-01-2005
Começou a chover. Saímos atrasados de Puerto Ordaz, debaixo de um forte aguaceiro, na direção da fronteira com o Brasil. O ônibus era esplêndido, realmente muito confortável.
Quando começou a amanhecer, estávamos na Gran Sabana e apareciam, com as luzes da alvorada, o Pico Roraima e outros maciços montanhosos. São tepuys, legendários, com escarpas íngremes e as mesetas planas, vertidas para o azul infinito com seus estalactites eternos, antigos como a origem do universo. Lá é o espaço de uma flora exclusiva em que as navias, bromélias estreladas, habitam as escarpas rochosas.
Havia charcos na savana aberta e ao longe, percebia-se a presença amarelada de outra bromélia endêmica — a brocchinia, gênero próprio daquele habitat desolado e deslumbrante, coroado pelos picos íngremes.
Havia, ao longo do percurso, muitos acampamentos com jipes prontos para as excursões ecológicas às montanhas mágicas da Gran Sabana. Gente do mundo inteiro é atraída pelo mistério dos tepuys, e quem pretenda subir a montanha mais alta da geografia brasileira — o Pico Roraima, que nos divide da Venezuela -- tem que fazê-lo pelas trilhas que partem do país vizinho.
É recente a descoberta do pico em terras brasileiras, durante as demarcações de fronteiras na segunda metade do século passado.
Quando eu estava no grupo escolar, aprendi que o ponto mais elevado do Brasil era o Pico da Bandeira, em Minas Gerais, bem mais modesto em altitude e magnitude, que o de Roraima.
O ponto negativo da viagem foi o tratamento prepotente e antipático dos militares venezuelanos que paravam os ônibus em “alcabalas” móveis ou fixas que paravam os ônibus e humilhavam os passageiros, vestidos com uniformes de campanha, como se estivessem numa operação de guerra. Escolhiam um ou dois passageiros, aleatoriamente, ou supostamente “suspeitos”, levavam-nos para local nas proximidades, operação morosa, estressante, revoltante. As pessoas voltavam mudas, nervosas e aliviadas da pressão psicológica.
Muito diferente do tratamento na fronteira brasileira onde militares vestidos mais discretamente, com sorriso e atenção especial aos turistas, de forma bastante expedita.
Pode ser que os venezuelanos tenham seus motivos para as inspeções, mas nada justifica os maus tratos, a arrogância e a lentidão na prestação de um serviço público.
O ônibus quebrou a 40 km de Santa Elena de Uairén, entre uma alcabala e outras. Ficamos mais de uma hora esperando pelo socorro mecânico, oportunidade para andar no solo da savana. Havia apenas gramíneas e outras plantas rasteiras, mas o horizonte estava emoldurado pelo tepuys portentosos e onipresentes.
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O marco fronteiriço localizado na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em Pacaraima. pt.wikipedia.org/wiki/Pacaraima
Depois da tensão na fronteira, achamos Pacaraima um paraíso e Boa Vista muito agradável, apesar do calor úmido e abrasante. O taxista levou-nos para um pitoresco hotel de madeira — O H. Colonial — atendido por uma senhora de feições indígenas.
De noite fomos tomar “vitaminas com guaraná” e, de noite, fomos para a Orla, onde havia música ao vivo. NILDO escolheu um local exótico, com culinária japonesa.
A brisa era agradável e passamos ali um par de horas felizes.
05-01-2005
A viagem de volta para Brasília só aconteceu no fim da noite seguinte.
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